Isto da adolescência é uma carrinha em segunda mão e de pneus furados, porque, basicamente, o veículo aguenta-se com peças que não lhe pertencem, que não encaixam totalmente entre si, viaja por estradas penosas, sob o sol que lhe torra o capô, vê-se perto da meta e a ficar sem gasolina... para adicionar a estas maravilhas, tem ainda que passar por revisões de todo tipo - e ai da carrinha que chumbe nalguma delas!
Todo este percurso para quê? Para ser estacionada num ferro-velho, quando for altura do adolescente crescer e deixar para trás o corpo errado e em segunda mão. Ou assim se espera. Mas antes disto, a carrinha da adolescência tem de se decidir por uma estrada, sendo que todas parecem compridas demais e praticamente inacessíveis. Uma vez que a carrinha entre na faixa, não há possibilidade de inversão de marcha, a menos que, quando se é já adulto e se conduz um carro ligeiramente mais bem preparado para as estradas da vida, se volte atrás - contudo, não será a mesma pessoa que retorna, nunca será a carrinha desfeita da adolescência, pois essa, a horas tais, foi já desmontada em peças que seguiram para venda.
Por isso é que tenho saudades de ser uma criança pequena e analfabeta, altura em que a vida é uma bicicleta com rodinhas laterais de protecção.
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Vão dar pela minha falta, mas não temam que eu não estou aqui para morrer. Eu vou estar viva.
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Por favor, não me faças acomodar na vida, não me prives dos sonhos, não me amargures. Mantém-me a criança feliz que às vezes sou, dá-me os caminhos correctos para seguir, venda-me se eu for mais alegre vendada e dá-me forças.
Diz-me que a vida é um livro, concede-nos baladas, mostra-me que para se ser bonito não tem de se ser imaginário. Quero que me contes como os homens são belos e as mulher interessantes, quero que me juntes aos que me são próximos, que lhes atrases a linha da morte até eu estar preparada.
Deus, enxuga as lágrimas que estou a chorar, embala-me com canções sobre o amor e o sucesso, contraria-me as ideias e ganha, mostrando-me que ninguém se acomoda, que a vida é mais do que isso. Pega-me na mão e escreve através de mim. Dá-me independência, move as minhas pernas na direcção do desconhecido, deixa-me cair e apara-me com uma rede larga.
Tu que estás mais alto do que eu, diz-me se vês luzes e fios que entrecruzam as pessoas porque tu o dizes ou se vês água salgada e terra batida.
Espero que sejamos mais.
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Tive uma discussão com a minha mãe. Ultimamente, sinto que ela tem inveja porque eu fico em casa e ela não...gostava que ela percebesse que não sou eu quem estabelece os horários. Dói-me muito quando ela me diz que tenho uma vida perfeita e que corre tudo à minha maneira, quando ela me acusa de não ter do que me queixar, já que passo o dia no computador sem fazer nenhum. Sabes mãe, eu fico o dia no computador, porque não tenho ninguém à minha espera na rua. Tens a noção clara de que a minha única amiga é a Junko e de que quando ela não está, eu não tenho mais ninguém com quem ir ter. Também gostaria que percebesses que eu passo a vida no computador, pois encontro outras pessoas presas no mesmo ciclo vicioso e cá fora é-me difícil partilhar gostos com alguém.
Dói-me muito quando ela me atira coisas à cara. Eu queria ir a Lisboa dois dias apenas, mas não sei se terei dinheiro e não, mãe, isso não é querer tudo, querer tudo seria sair todos os fins-de-semana como fazem as minhas colegas, aquelas que são normais como tu gostarias que eu fosse. Dois dias por ano farão tamanha diferença? E a semana em que me vou embora não vai ser paga por ti, estás constantemente a relembrar que não posso ir de mãos vazias, mas dares-me dinheiro para um gelado ou uma senha de autocarro (o tipo de produtos que poderei precisar de comprar lá) custa assim tanto?
Odeio a escola, por isso é que este ano falto tanto. Não me sinto feliz e não sinto que esteja onde devia estar. Para onde quer que olhe, não me integro. As pessoas não gostam de mim por não ser como elas, os meus colegas dizem que eu sou diferente porque tenho boas notas e, portanto, devo passar os dias a estudar - hoje em dia, estudar é quase um crime de guerra. Como eu digo o que penso, sou antipática, então as que dantes falavam eventualmente para mim, já não falam. Eu não afasto os outros pelo meu feitio, desculpa se nunca tive vontade de ser básica como eles, desculpa se nasci tão narcisista, mas prefiro afastar-me a sofrer vergonhas.
Também me dói quando perguntas porque sou a única que não tem namorado. Os rapazes não olham para mim, e sabes que eu tentei, mas sou tão estranha, nasci de forma tão errada, que quando eles me tocam, eu sinto nojo. Não é só com eles, mãe. Tive uma colega que me ofereceu uma moldura feita à mão, que me explicou que pedira ao pai para a ensinar e passara semanas a fazê-la...eu queria deitá-la fora, porque sinto nojo quando os outros demonstram afecto para comigo. Nem abraçar alguém em condições eu consigo, sinto-me mal, sinto que o meu corpo não foi feito para se adaptar. Acho que era suposto ter nascido com uma condição médica muito frágil que me obrigasse a viver dentro de uma bolha de plástico. Não gosto do toque e os rapazes gostam de tocar, por isso é que sou a única que não tem namorado, mãe.
Não gosto que fales das minhas amigas do ecrã como se eu mal as conhecesse, nem gosto que não confies nelas. Eu confio. Se calhar elas não me consideram amiga, mas eu não me importo, por não ter mais ninguém com quem falar. Passo o dia em pulgas para poder vir à internet e contar as ideias geniais que tive ao longo do dia, mas que tive de reprimir porque ririam de mim se as contasse a alguém da escola. É por isso que não me importo se elas não gostarem de mim a sério...por detrás do ecrã eu não as vejo a rir, então não me magoa.
Agora tenho de ir para a universidade tirar um curso qualquer que me torne inteligente, mas, mãe, dói tanto quando dizes que passo o dia sem fazer nenhum! Eu quero ser inteligente para escrever bem e as horas que gasto aqui não são desperdiçadas, são, na sua maioria, a escrever, a tentar cada vez mais afincadamente escrever bem. Sinto-me muito sufocada, não sei que curso seguir, nem sei se o quero e a perspectiva de ter de esperar pelo menos mais três anos para poder emigrar faz-me querer desistir. Não quero ir para a universidade, quero ir para o Japão, quero perder-me nas ruas onde há tanta gente que ninguém reparará em mim, quero passar nas esquinas onde eles se vestem como eu e sentir que pertenço a algum sítio. Tenho tudo bem pensado, não quero ser empresária, nem advogada, quero trabalhar num café e andar maquilhada o dia todo, quero sofrer por algo que escolhi, não por algo que me é imposto.
Se calhar, como sou esquisita, vou acabar por ficar cá e seguir os passos de toda a gente. Provavelmente ninguém vai ler os meus livros, caso consiga escrever e publicá-los, não vou encontrar um homem pelo qual não sinta a mínima repulsa e não vou ter um grupo grande de amigos e amigas com quem faça karaoke numa língua estranha. Vou contentar-me com um curso qualquer, um daqueles que vocês chamam de "bom", talvez, mas receio que se ficar cá, acabe por seguir o rumo do resto do mundo, me acomode e nunca chegue a ir atrás dos meus sonhos. Talvez fosse mais fácil se não me deixasses ter lido todos aqueles livros e visto aqueles filmes quando era pequena. De qualquer forma, gostava que acreditasses em mim.
Desculpa lá, a minha vida é perfeita e eu não sei do que reclamo...
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Estou viva, mas a preparar-me para entrar no espelho. Vejo-vos do outro lado.
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Vou dormir, vou passar pelo menos quatro tardes por semana fora, vou pegar no pc com menos frequência e vou fazer exercício físico.
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Hoje falaram comigo sobre bolsas escolares e aconselharam que me informasse, porque há um certo sítio para o qual terei de preencher candidaturas ainda este ano, caso pretenda receber ajuda financeira. Continuo sem saber bem para onde ir, embora já tenha um campo de escolha; é complicado decidir o que fazer no auge dos meus dezasseis anos. Estive a pensar, se conseguir enveredar pelas áreas que discutimos vou ter muito trabalho, muita responsabilidade, vou ser uma mulher engravatada e eu que nem nós de gravata sei dar...Depois vou ficar presa aqui e não vou poder viajar para fazer todas aquelas coisas que eu disse que queria. Então, tenho andado a ignorar o óbvio e a mergulhar mais fundo no meu mundo de faz-de-conta. É bom sonhar.
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Queria ser astronauta, rodar o planeta, bola colorida entre as mãos do universo, observá-lo lá de cima, pequeno, insignificante, tão importante, países como formigas, pessoas que deixariam um buraco negro se desaparecessem, mas que no espaço não se vêem nem à lupa. Queria ser peixe num mar de estrelas, tão pequenina, tão grande, eu numa nave espacial e as pessoas a fazerem contas, a anotar, a procurar...sempre, mais e mais, à procura do quê, à procura de quem? Queria ser integrante da NASA, mas não vou sê-lo.
Queria brincar aos polícias e aos ladrões, uma pistola a sério nas mãos de uma criança, a correria incansável pela missão impossível - a de limpar a Terra. Prender, prender, prender, arrancar uma erva daninha para nascerem mais mil, mas nunca parar, ser o bom agricultor que está sempre de olho nos terrenos, que não se cansa e não pergunta porque continua, limita-se a fazê-lo. Queria ser polícia, mas não vou sê-lo.
Queria ser psicóloga criminal, numa sala com um psicopata e o psicopata ri e eu não acredito, e o psicopata chora e eu não acredito, e o psicopata dá-me a volta com uma facilidade incrível, porque neste mundo ganha o vilão e subjuga-se o herói. Conhecer mentes complexas, tão intrincadas que dariam livros sem fim, confrontar coisas que eu própria sinto, que eu própria vejo, que eu própria nunca confessaria a uma psicóloga. Queria andar por países de línguas estrangeiras a trabalhar com pessoas conturbadas, mas não vou fazê-lo.
Queria ser artista. Pintar como quem vê as paisagens que não existem, retratar aquele rosto - que murcha e morre - para o marido o recordar, para os filhos o recordarem, para os netos o conhecerem. Cantar como quem sofre, a alma sempre presa num calabouço, porque a boca chora as lágrimas que os olhos não escorrem. Viver aqui, ali, neste século, naquele, ser loira, ser morena, ser homem, ser mulher, actriz ou actor. Queria escrever sobre os seres que me habitam, os que falam e só eu escuto, os que discutem apenas contra mim, os que se querem libertar, mas não têm corpo...queria dar-lhes vida numa folha de papel e fazer minhas as suas dores, e fazer minhas as suas alegrias. Mas não vou.
Vou ser grande, possivelmente casada com o Francisco, porque o João acabou por não existir, mãe da Teresa e do Guilherme, porque não houve dinheiro para os outros. Vou ser secretária ou empregada de balcão, pois os aviões não me levaram para onde eu queria e a linha do destino não me puxou para o sonho. E de sonhos estarei cheia, como está o mundo todo, mas de sonhos reprimidos, não concretizados...afinal, como chegaria eu às estrelas? Quando teria oportunidade de segurar na arma? Em que país acolheriam uma forasteira mal amanhada? Quem vai ler livros portugueses que não sejam de uma Margarida ou de uma Rita ou de uma outra
escritora light? Vou crescer, procriar, trabalhar, reformar-me e esperar que a morte chegue. Vou ser uma adulta.
ps: para quem me lia no já não és skinny, love - voltei.
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Fui ao cabeleireiro tratar do meu cabelo de barbie (aqueles fios de aspecto desgrenhado e seco que já não brilham, nem se deixam pentear) e eis que a cabeleireira decide fazer conversa de ocasião já que a minha boca estava trancada a cadeado, mas as minhas pálpebras teimava em mover-se em sentido descendente. Começou por confirmar se a escola que frequento é a mais próxima daqui, depois passou à questão das áreas - e eu suspeito que ela estivesse à espera que eu lhe respondesse que tinha chumbado e desistido dos estudos, já que o meu aspecto era o de uma sem-abrigo. Ou o de uma drogada, tendo em conta a cor da minha pele, a profundidade das minhas olheiras e a maneira como estava vestida.
Acontece que a mesma situação desagradável se repete desde antes mesmo de eu entrar para o secundário. Estou eu junto aos portões do básico e uma contínua pergunta: Então, vais para que área? Eu respondo que vou para Línguas e Humanidades e o sorriso da senhora é automaticamente desligado, porque eu sou tão esperta e podia ir para ciências...A cabeleireira ficou fixada na palavra "Línguas" e o erguer das sobrancelhas antecipou-se às palavras. Vais para o desemprego? Vou para o desemprego como vão os outros todos, respondi eu.
Irritou-me mais quando foi uma professora a inquirir onde ia eu encontrar trabalho estudando Humanidades, porque, sinceramente, esperava que uma professora não tivesse tala nos olhos, mas parece que sim. Sou capaz de encontrar trabalho onde encontram os elevados números de alunos de Ciências que seguem essa mesma área sem o mínimo conhecimento seja do que for e acabam chumbados, a terminar disciplinas ou com uma média ridícula.
Ora, qual foi o meu espanto ao encontrar o diploma de uma candidata (que seguiu Ciências) a empregada na loja onde trabalha a minha mãe (que seguiu Línguas e Humanidades); o meu espanto não foi, evidentemente, o facto dela ser letrada, mas sim o curso. Certifica-se que *inserir nome* se formou no curso de enfermagem. Enfermagem é Ciências, não é? E eu que pensava que Ciências era uma espécie de estrada para o sucesso...
Pergunto-me o que me diriam se eu respondesse que seguira Artes. Talvez rissem na minha cara, talvez pensassem que eu escolhera a área "mais fácil" por ser pouco apta - que é opinião de muitos ignorantes palradores.
Um facto curioso é que desporto também não é muito bem encarado, mas o jogador mais bem pago na hora da contratação é português e se é jogador trabalha, obviamente, na zona do desporto e um dos homens mais ricos do mundo é um génio da informática - aquela coisa para a qual ninguém dá muito crédito, porque quem estuda deve seguir as leis do facilitismo.
Vou terminar. Mas não se esqueçam meus filhos: a chave para o sucesso não está no talento, no empenho ou na inteligência, mas sim na área de Ciências e Tecnologias.
ps: Nada contra os estudantes da dita cuja.
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Venho um bocadinho tarde - quatro dias, para ser mais exacta -, mas precisava de tocar no assunto. Era hoje a quarta noite em que dormia nos meus dormitórios de Hogwarts. Eu e mais um grupo de colegas não identificadas, na torre dos Ravenclaw. Em vez disso, estou presa no meu sofá, completamente tomada por insónias e a tentar seriamente abstrair-me do facto de que as férias estão no seu término...Tenho três dos quatro livros para este ano numa estante e para não me recordar da realidade, recuso-me a ir ver se preciso de cadernos novos.
Não quero ir para o décimo segundo. Crescer nunca foi o meu sonho, estar à beira de ir para a Universidade nunca foi o meu sonho e sentir-me assim, definitivamente, nunca foi o meu sonho. Poderia entrar numa de roleplay, fingir ser outra pessoa, estar lá longe num castelo, um monte de feiticeiros a rodear-me, mas nunca fui pessoa disso. Gosto, sim senhor, de viver através de personagens, mas não gosto de me colocar a mim mesma no habitat delas, porque para além de incompleto, isso é algo que me deixa melancólica.
Sou tão mais feliz aqui que até dói. Não quero entrar novamente em rotinas desnecessárias e não quero ter de lidar com o final intermitente do secundário, pois não sei exactamente para onde me dirigirei a seguir. Alguém se oferece para trocar de vida comigo, por favor? É só entrar na minha pele por um ano e fazer as escolhas todas por mim.
Gostava muito de ser a criação bonita de alguém, de rodear muralhas inexistentes, de circundar por mundos imaginários, mas esse poder não está a meu alcance. Assim, espero silenciosamente que as coisas melhorem com o tempo, mas o tempo nunca melhora coisa alguma. Tenho imensa pena de não poder ser especial.
E à JK Rowling e etc, agradeço por me fazerem chorar e desejar ter nascido numa folha de papel, tendo de enfrentar o facto de que a realidade é muito menos charmosa que os contos, de que no final não há nem varinhas, nem equipas para nos integrarmos, nem uma amizade capaz de não ser sequer quebrada por uma batalha sangrenta. Obrigadinha pelas ilusões.
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Era uma vez uma criança pequena que brincava às bonecas, no seu mundo do faz-de-conta-que-és-uma-barbie. Chegou a vizinha e perguntou: Lily, o que queres ser quando cresceres? Lily esticou os braçinhos para o céu num gesto de perguiça e não ponderou muito, antes de retorquir: quero ser empregada de balcão. A vizinha riu; empregada de balcão? Oh, que mente fértil, onde já se viu alguém ambicionar ser empregada de balcão? E tornou a perguntar: Mas Lily, qual é o teu sonho? E a Lily novamente respondeu que queria ser empregada de balcão. Aquilo não estava bem...as crianças devem sempre querer ser bombeiras, astronautas, médicas ou veterinárias. Depois crescem mais um pouco e, ainda crianças, preenchem atabalhoadamente uma folha e escolhem um curso como arquitectura, direito, educação... Por isso, a vizinha tornou ao ataque: Tontinha, não há cursos para empregadas de balcão. Não queres ir para a Universidade como o mano? Lily relembrou a cara entediada do mano que trazia sempre toneladas de papeis debaixo do braço, centenas de pastas nas mãos, olheiras cravadas até ao umbigo. E, portanto, foi muito lógico para si quando disse: Claro que não. Quero ser empregada de balcão. A vizinha torceu o nariz; criança não pode querer ser empregada de balcão, tem de pensar no dinheiro, na estabilidade, enfim, numa vida boa.
Lily concentrou-se novamente no jogo de bonecas, pensando para consigo que a barbie da mão direita era empregada de balcão - uma muito feliz, por sinal - e que a da esquerda limpava piscinas. Nenhuma delas frequentara a universidade, não ganhavam grandes quantidades monetárias, mas Lily tinha a certeza de que elas tinham...como se diz? Ah, uma vida boa.
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Hoje caí realmente em mim e apercebi-me de que estou prestes a entrar no meu último ano de secundário. Recordo os meus tempos de infância (muito feliz agora, não tão feliz na altura), as brincadeiras com a minha prima, e pergunto-me se aquele era o futuro próximo que tinha para mim planeado...porque se fosse, falhei redondamente. Talvez tenha sido aí que comecei a desenvolver personagens; eu, a irmã menos centrada, nunca a mais popular do liceu, mas sempre rodeada de amigos, perseguida insistentemente pelo rapaz que fingia detestar desde que conhecia...e depois ficávamos juntos, tudo era feliz e a encenação terminava - pergunto-me se o clímax da brincadeira não teria a ver com uma antecipação do depois, uma certa premonição de que nunca conseguiria encontrar piada depois da fase da conquista. A minha prima era a irmã mais responsável e adorada, tinha uma relação estável que acabava por sofrer um tremor a meio, era sempre a primeira a fazer as coisas e a decidir-se. Mas eu gostava assim. Os nossos pais passavam a vida em viagens para o estrangeiro, nunca tínhamos os bolsos vazios porque éramos milionários e, ocasionalmente, tínhamos um irmão estouvado que trazia raparigas para casa sem a autorização devida...oh, mas era o meu irmão favorito!
Fiz aqui uma perpendicular que começa a ficar paralela. Voltando atrás, éramos nós alunas de um secundário, muito construído à imagem de Hollywood, a sair à noite pelo simples prazer de o fazer e não pela vontade de beber até cair para o lado. Às vezes até éramos trabalhadoras/estudantes, eu com mais do que um emprego, porque premeditava que seria indecisa até na vida real, os cargos de maior respondabilidade sempre nas minhas mãos.
O liceu era tão bom, éramos tão inteligentes, felizes e acompanhadas! Para onde foram esses sonhos? Tudo o que vejo agora é uma adolescente viciada em internet, duas amizades no máximo dos máximos, grupos só de raparigas e muito tremidos, eu a dar-me bem com esta ou aquela porque é mais conveniente; rapazes nem vê-los, filha única até aos ossos, a minha mãe não chegou a ganhar o euro-milhões, nem o meu pai morreu e me deixou de direito a herança, a escola não é nada emocionante e populada e não tenho stalkers, não dei o beijo da minha vida num baile de finalistas (porque nem eu tive um baile em condições, nem imagino que vá ter e, quanto a beijos, que é deles?) e as minhas notas são boas, mas não chegam para me satisfazer por si só.
Hoje caí em mim, porque me chegou o primeiro livro do décimo segundo (psicologia, para os interessados), não me vejo radiante na minha adolescência, mas sim com saudades do passado e não faço a mínima ideia do que raio farei depois do secundário. A vida é dura quando não se vive num sonho.
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